Cyberpunk: Do Underground ao Mainstream

Por João Vasques – 1º de julho de 2025

> “O futuro já chegou. Só não está bem distribuído.” — William Gibson

Quando os cabos ainda eram sujos

Lá nos anos 80, o cyberpunk explodiu como uma ressaca tecnológica mal resolvida. Veio de um lugar estranho: uma mistura de ficção científica com ressaca urbana, com pitadas de neon, fumaça e crise. William Gibson lançou Neuromancer e criou um novo vocabulário: ICE, cyberspace, console cowboys. Mas antes disso tudo, tinha o punk — o verdadeiro, o de porão.

O underground recebeu o cyberpunk como recebe qualquer mutante: com desconfiança, mas também fascínio. Porque ele dizia: o futuro será high-tech, mas continuará sujo.

Do zine pra Netflix: o rito da assimilação

O que era subcultura virou template. Filmes como Blade Runner (1982) não foram sucessos imediatos — mas viraram religião com o tempo. Akira (1988) trouxe o caos das metrópoles para a animação. Tetsuo: The Iron Man (1989) foi filme feito com ferro, suor e paranoia. E o espírito era esse: máquina contra carne, empresa contra indivíduo, dados contra memória.

Nos anos 90 e 2000, veio a absorção. Matrix (1999) era cyberpunk com traje de gala — e ainda falava sobre libertação. Mas conforme o estilo virou paleta de cor em apps e capa de playlist, o gênero foi domesticado. Hoje, até clipe pop carrega “vibe cyberpunk”. A estética venceu — mas será que o conteúdo sobreviveu?

🧬 O que restou no underground digital

No Reddit obscuro, há quem recrie netlabels de música glitch como se fossem protesto. No YouTube, documentários como The Internet’s Own Boy (sobre Aaron Swartz) resgatam o ethos original: liberdade digital, resistência, paranoia com fundamento.

A cultura cyberpunk hoje vive na borda: em mods de jogos, fanfics híbridas, designers que fazem tipografia com código quebrado. Ainda há sinal de vida — mas é preciso sintonizar com ruído.

Último código:

Talvez o cyberpunk tenha vencido. Ou talvez tenha sido derrotado pela própria estética. O que é certo é que ele nunca foi só um visual — era um aviso. E mesmo engolido pelo mainstream, ainda carrega em silêncio sua senha original: não confie em nenhuma interface brilhante demais.

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