O Heathcliff que o cinema insiste em embranquecer

A mais recente adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes reitera uma discussão que, para os leitores atentos de Emily Brontë, jamais foi dúvida: a identidade étnica de Heathcliff.

Brontë não foi ambígua. Em 1847, a autora descreveu-o como um “cigano de pele escura”, uma criança resgatada em Liverpool — porto que, à época, funcionava como o entreposto de marinheiros e imigrantes oriundos de colônias remotas. O epíteto “Lascar”, empregado no texto original, era a designação comum para indivíduos do subcontinente indiano ou do sudeste asiático.

Tal fisionomia transcende o mero detalhe estético; constitui, em verdade, o cerne da tragédia. Heathcliff personifica o “estrangeiro”, o “outro” irremediavelmente segregado pela aristocracia rural de Yorkshire.

Quando o cinema escala atores brancos para o papel, oblitera a camada de preconceito racial que fundamenta o seu isolamento e a sua vingança implacável. Sem essa barreira social intransponível, o personagem reduz-se a um homem amargurado, despojado da condição de subproduto de uma sociedade que o rejeita pela cor da sua pele.

Para o leitor que deseja transcender a superfície das adaptações e apreender a força bruta do texto original, é imperativo recorrer a edições que preservem o rigor crítico e a tradução fiel dos manuscritos, como a edição de texto integral da Darkside ou a versão de luxo da Novo Século.

Essas edições oferecem uma experiência complementar por meio de ensaios e notas que aprofundam as tensões étnicas na era vitoriana, sendo as opções mais recomendadas para compreender a obra de Brontë em sua totalidade.

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