O Cinema e a Política: A Imagem como Ato de Resistência

> “Toda imagem é uma escolha política.” — Agnès Varda

A Estética da Insurgência – Quando o Filme Incomoda

Existe uma diferença entre o filme que “fala sobre” política e o filme que é político. Um trata do tema; o outro incorpora a urgência na forma. O cinema como ato de resistência não está apenas naquilo que é dito, mas na maneira como é encenado, montado, filmado.

Obras como Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha não apenas denunciam regimes autoritários — elas desmontam o próprio aparato da linguagem cinematográfica tradicional como gesto subversivo. Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, constrói um faroeste tropical onde o povoado resiste com estética híbrida: thriller, realismo mágico, ficção científica.

O grito é formal — e por isso, político.

A Forma como Posicionamento

Uma câmera tremida que insiste em filmar o corpo de quem é silenciado. Um corte abrupto que racha a harmonia da narrativa. Um som diegético que interrompe a música-suspense. Cada um desses gestos é uma decisão ideológica. Não há neutralidade na imagem.

O grupo Dziga Vertov, do qual Godard participou nos anos 70, já propunha esse cinema militante de desconstrução e denúncia. Hoje, a herança segue viva em realizadores que pensam a linguagem como ferramenta de insurgência — de Laura Poitras a Radu Jude, de Ana Vaz a Adirley Queirós.

O Corpo como Território de Conflito

O corpo filmado em um contexto político não é apenas representação — é presença, denúncia e disputa. Em Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, a câmera acompanha a doméstica Val de forma contida, mas reveladora. A casa, com seus corredores, escadas e portas, vira metáfora visual de exclusão de classe.

Já em documentários como Democracia em Vertigem (2019), o corpo que fala, narra e chora também performa resistência. O corpo narrado não é um corpo pacificado — é um corpo em embate.

A Política do Não Dito – O que Fica Fora do Quadro

Talvez o maior gesto político do cinema esteja na escolha do que não filmar. Ou na recusa em explicar. Filmes que deixam lacunas, que trabalham com a ausência, muitas vezes nos forçam a olhar de maneira mais ativa. O silêncio pode ser grito. A sombra pode conter a verdade.

A montagem, nesses casos, vira campo de batalha. A elipse não é apenas transição temporal — é censura estética revertida em potência crítica.

Epílogo – A Tela Como Palanque (ou Trincheira)

Cinema e política não são categorias distintas. O cinema é política — mesmo quando tenta não ser. Todo filme escolhe, enquadra, corta, estrutura. E toda escolha é um gesto. No tempo das redes sociais aceleradas e da superficialidade algorítmica, filmes que apostam em camadas, em resistência formal e em posicionamento crítico tornam-se raros — mas absolutamente necessários.

Assistir passa a ser um ato: não de conforto, mas de confronto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima